O Cine Itapuã não é apenas um edifício antigo do Gama. Ele funciona como uma espécie de arquivo urbano em concreto, onde cada fase deixou marcas materiais, políticas e afetivas. Inaugurado em 28 de março de 1961, na Praça 01 do Setor Leste, próximo à Praça Lourival Bandeira, o imóvel carrega dois títulos que ajudam a explicar seu peso histórico: foi o primeiro prédio de alvenaria construído no Gama e chegou a operar como o segundo maior cinema do Distrito Federal, com 1.117 lugares.
Esses dados não são apenas curiosidades. Eles revelam como o Itapuã nasceu ligado à própria formação urbana da cidade. Em vez de surgir como equipamento isolado, ele foi pensado como ponto de encontro. Seu foyer amplo, o pé-direito elevado e a relação direta com a praça faziam do cinema uma extensão do espaço público. Você não apenas entrava para ver um filme. Você passava por um ritual de convivência, circulação e presença coletiva.
Por isso, olhar para o Itapuã exige uma leitura histórica mais ampla. O prédio sempre respirou com a cidade. Quando o Gama cresceu, ele cresceu em importância. Quando a política cultural brasileira entrou em crise, ele sofreu o impacto. Quando a comunidade reagiu, ele voltou a pulsar.
Cinco fases de uma mesma história
A trajetória do Cine Itapuã pode ser compreendida em cinco fases principais. A primeira vai de 1961 até meados dos anos 1980, quando o cinema vive seu auge comercial e se consolida como centralidade urbana de lazer popular. Era um tempo em que o cinema ainda ocupava papel central na vida cotidiana e no imaginário coletivo da cidade.
A segunda fase, entre meados dos anos 1980 e 1987, marca a disputa pelo futuro do prédio. O espaço entra em crise comercial, passa a exibir filmes adultos e sofre ameaça de ser convertido em supermercado. Esse momento não expressa apenas decadência econômica. Ele mostra uma mudança de lógica: a cultura deixava de ser prioridade, enquanto o mercado avançava sobre um símbolo local.
A terceira fase, entre 1988 e 1991, representa uma virada. É a era do Cineclube Porta Aberta, quando a mobilização social impede o desaparecimento do espaço e o transforma em referência do cinema nacional no Gama. Depois, entre 1991 e 2005, ocorre uma fase híbrida, com uso para shows, seminários, formaturas e outros eventos. Por fim, desde 2005, prevalece a etapa do abandono físico e da resistência comunitária, marcada pelo fechamento, pela deterioração e pela luta pela reforma definitiva.
O ano em que o Gama virou centro cultural
O marco mais simbólico dessa história ocorreu em 8 de outubro de 1988. Foi quando a reinauguração do Itapuã, após mobilização comunitária, transformou o Gama em centro do debate cultural brasileiro. O gesto tinha peso político. Reabrir o cinema significava substituir a lógica da decadência pela defesa do cinema nacional, da formação de público e da ocupação cultural do território.
A nova fase reuniu nomes importantes, como Giulia Gam, Vladimir Carvalho e Tizuka Yamasaki. Antes disso, o Cineclube Porta Aberta já havia demonstrado, em 1986, que havia público para uma programação de maior densidade, ao levar ao Gama a estreia de Memórias do Cárcere com presença de José Dumont. O que se provava ali era simples e profundo ao mesmo tempo: a periferia não era um vazio cultural. Ela tinha demanda, repertório e capacidade de protagonismo.
O prestígio foi tanto que, em 1989, o Itapuã recebeu a Mostra Competitiva do Festival de Brasília. Isso deslocou o eixo simbólico do cinema no DF. De repente, o Gama deixava de ser tratado como margem e passava a integrar o circuito central da produção e da exibição cinematográfica. Mesmo uma falha técnica na noite de reinauguração, quando um curta de Mário Kuperman não pôde ser exibido por falta de instalação dos projetores de 35 mm, não apagou o sentido do evento. A sala cheia falou mais alto. O direito à cultura havia sido retomado.
Como a crise se instalou
O fechamento do Cine Itapuã, consumado em 2005, não pode ser explicado por um único fator. Ele resulta do encontro entre política nacional, burocracia patrimonial e desgaste estrutural. O primeiro golpe veio com a extinção da Embrafilme no governo Collor. Sem uma estrutura robusta de distribuição de filmes brasileiros, experiências cineclubistas e salas fora do eixo central perderam sustentação econômica e institucional. O Itapuã resistiu mais que muitos, mas essa resistência tinha limite.
O segundo problema foi o imbróglio patrimonial. Embora o imóvel tenha sido doado ao GDF nos anos 1990 por comerciantes locais, a regularização oficial só aconteceu em 2012. Esse intervalo criou um vácuo de gestão pública. Sem regularização clara, os investimentos estruturais ficaram travados por mais de duas décadas.
O terceiro fator foi físico. O uso diversificado do prédio, sem manutenção adequada, ampliou infiltrações e comprometeu a cobertura. A queda do telhado levou à interdição. Nesse ponto, o fechamento deixou de ser simbólico e se tornou material. A cidade passou a conviver com a ausência concreta de um espaço que antes articulava encontro, arte e memória.
Da ruína à resistência
Mesmo fechado, o Itapuã não desapareceu da vida do Gama. Ao contrário, transformou-se em bandeira. A Lei nº 5.616, de 2016, declarou o espaço como Patrimônio Cultural Material do Distrito Federal. O reconhecimento legal consolidou o que a comunidade já afirmava há anos: o prédio tem valor histórico e identitário.
Paralelamente, movimentos como o Itapuã Resiste passaram a manter o tema em circulação, com atividades culturais em frente ao prédio e pressão contínua por obras reais. Essa mobilização é decisiva porque enfrenta um problema comum em políticas patrimoniais brasileiras: o reconhecimento formal existe, mas a preservação concreta demora.
Em março de 2026, houve novo anúncio de ordem de serviço para a reforma. Ainda assim, a comunidade reage com cautela. Depois de promessas não cumpridas em 2013 e 2021, o sentimento predominante é de vigilância. Você acompanha, cobra e observa, porque a experiência ensinou que memória sem obra pode virar apenas discurso.
O que o Itapuã ensina hoje
O debate atual vai além da reabertura de uma sala de cinema convencional. A própria reflexão presente no artigo-base aponta que um modelo exclusivamente comercial já não responde sozinho à realidade do streaming e das novas práticas culturais. Nesse cenário, a ideia de um centro cultural multifuncional ganha força: cinema, oficinas de audiovisual, museu da memória do cinema, palco para música e espaço de formação.
Essa proposta faz sentido porque o Itapuã sempre foi mais do que tela e poltrona. Ele foi praça, passagem, rito coletivo e símbolo de pertencimento. Recuperá-lo significa devolver ao Gama um equipamento cultural capaz de dialogar com a juventude, com os produtores locais e com a memória da cidade.
Um símbolo que ainda pede futuro
Para quem estuda a formação de Brasília e das cidades do DF, o Cine Itapuã é uma aula concreta sobre o direito à cidade. O prédio demonstra que a vida cultural não nasce apenas no centro político-administrativo. O Gama já foi palco de exibição, debate e circulação artística em escala metropolitana. Preservar o Itapuã, portanto, não é repetir o passado. É reparar uma interrupção histórica.
A reativação do espaço interessa à memória, mas também ao presente. Quando um prédio como esse volta a viver, a cidade recupera parte de sua capacidade de se reconhecer publicamente. O Itapuã permanece de pé porque carrega uma verdade simples: uma comunidade que luta pelo seu cinema está, no fundo, lutando pelo seu lugar na história.
Síntese da notícia:
O Cine Itapuã atravessou auge, crise, reinvenção e abandono, sempre ligado à vida urbana do Gama. Patrimônio cultural do DF, o prédio simboliza a luta pelo direito à memória, à cultura e à requalificação de um espaço que marcou gerações entre 1961 e 2026.

