O Cine Itapuã transcende sua condição de alvenaria e concreto para se consolidar como um marco fundamental da identidade do Gama. Em um Distrito Federal historicamente centralizado no Plano Piloto, a preservação deste equipamento é estratégica para promover a descentralização cultural, garantindo que a Região Administrativa II deixe de ser apenas uma margem consumidora para se reafirmar como um centro pulsante de produção e fruição. Inaugurado em 28 de março de 1961 pela Empresa Paulo de Sá Pinto, o edifício foi o primeiro de alvenaria na cidade, simbolizando o amadurecimento urbano do Gama. Com 1.117 lugares, consolidou-se como o segundo maior cinema de Brasília, superado apenas pelo Cine Brasília.

A transição da fase comercial para a cineclubista (1986-1988) demonstrou a resiliência da comunidade frente ao desgaste do circuito comercial. O movimento liderado pelo Cineclube Porta Aberta substituiu a exibição de pornochanchadas por mostras de cinema nacional de alta densidade, tendo como marco a exibição de Memórias do Cárcere, com a presença do ator José Dumont. Essa fase provou que o Itapuã não era apenas uma sala de projeção, mas uma ferramenta de política cultural ativa. No entanto, o brilho desse passado contrasta severamente com o estado de deterioração registrado desde seu fechamento definitivo em 2005, tornando a intervenção técnica e política uma urgência absoluta.
Diagnóstico do Abandono e Amparo Legal (Lei 5.616/2016)
O atual estado do Cine Itapuã é o resultado direto de um hiato erosivo nas políticas de manutenção continuada. O abandono físico — marcado por janelas quebradas, infiltrações e o colapso do telhado — reflete uma paralisia burocrática que permitiu que o tempo agisse como agente destruidor do patrimônio público. Embora o processo de doação ao GDF tenha começado na década de 1990, a oficialização patrimonial só ocorreu em 2012, o que historicamente travou licitações e investimentos estruturantes.
A proteção legal foi consolidada pela Lei nº 5.616/2016 (originada no Projeto de Lei nº 593/2015), que declarou o espaço como Patrimônio Cultural Material do DF. Contudo, há uma desconexão crítica entre o reconhecimento legal e a realidade do prédio, que segue isolado por tapumes e ocupado por entulho. Este “vazio cultural” impacta severamente a vida social do morador do Gama, subtraindo espaços vitais de lazer noturno e sociabilidade segura. A reativação, portanto, não é um resgate nostálgico, mas uma adaptação contemporânea necessária para preencher essa lacuna social e urbana.
Proposta de Transição: O Modelo de Equipamento Cultural Híbrido
A migração do modelo de sala única para um centro multifuncional é imperativa. A análise técnica do setor audiovisual indica que o cinema de rua isolado é economicamente inviável frente ao streaming e aos complexos de shopping. O Itapuã deve renascer sob uma Gestão Híbrida, aprendendo com a crise da Embrafilme nos anos 1990, que implodiu o modelo cineclubista dependente de uma única fonte federal. O novo Itapuã deve diversificar suas frentes de atuação:
- Audiovisual: Retomada de mostras temáticas e festivais, resgatando o elo com o Festival de Brasília. É fundamental honrar o prestígio de figuras como Wilson Gray, que marcou as exibições cineclubistas em 1989.
- Artes Cênicas e Música: O palco deve receber espetáculos de teatro e shows, aproveitando o legado de artistas como Emílio Santiago, Ângela Rorô e Beto Guedes. A presença simbólica de Giulia Gam na reinauguração de 1988 deve servir de inspiração para manter o Itapuã como vitrine para talentos nacionais.
- Formação e Memória (Salvaguarda Documental): Criação de salas de oficinas e um museu do cinema. Uma prioridade será o “Salvamento de Arquivo” (recuperação documental), visando recompor a memória perdida com a deterioração da coleção da Folha do Gama, garantindo que a história oral e visual do espaço não desapareça.
Esse modelo transforma o Itapuã em uma estação de convivência e polo de economia criativa, garantindo ocupação regular e relevância social ininterrupta.
Requalificação Urbana e Impacto no Entorno
A requalificação deve ser pensada de forma integrada: o prédio precisa “respirar” com a cidade. O projeto arquitetônico original, com seus vãos livres generosos e foyer amplo, já antecipava essa vocação para a integração urbana. O projeto de urbanismo da Seduh para o Setor Leste (158 mil m²) atua como catalisador de segurança e valorização social.
| Item | Especificação |
| Calçadas Acessíveis | 15.554 m² |
| Área Verde | 57.140 m² |
| Paisagismo | 280 mudas de árvores e 20 de arbustos |
| Mobiliário | Bancos, lixeiras, pergolados e ciclovias |
| Equipamentos | Minicampo, quadras e Ponto de Encontro Comunitário |
Essa infraestrutura mitiga o isolamento do equipamento cultural e promove o direito à cidade, transformando o entorno do Cine Itapuã em um ambiente qualificado para o convívio comunitário.
Estratégia de Implementação e Gestão (2026 em diante)
O anúncio de 2026 pelo GDF deve ser encarado com cautela técnica, dada a sucessão de promessas não cumpridas em 2014, 2021 e 2022. Investimentos parciais, como os R$ 463.355,04 aplicados no telhado em 2022, provaram ser insuficientes sem um modelo de gestão robusto. Para a reativação definitiva, propõe-se:
- Atualização Tecnológica: A instalação imediata de equipamentos de projeção digital e som de última geração, evitando o erro histórico de 1988, quando a exibição do curta A Cor da Luz (com Giulia Gam) foi cancelada pela ausência de projetores 35mm.
- Governança Participativa: Criação de uma comissão gestora com o movimento “Itapuã Resiste” e a comunidade local.
- Indicadores de Sucesso: Aferição baseada na ocupação regular, fomento a artistas locais e preservação documental efetiva.
O valor real do projeto reside na quebra do ciclo de frustração social, transformando a desconfiança em pertencimento.
Conclusão: O Itapuã como Eixo de Pertencimento
O Cine Itapuã não é uma ruína a ser ocultada, mas um ativo cultural que reorganiza a identidade do Gama. Sua restauração física deve ser acompanhada por um projeto pedagógico e artístico que honre o legado do Cineclube Porta Aberta. Reativar o Itapuã é reconhecer, de forma definitiva, a periferia como centro produtor de cultura e inteligência. Ao devolver este espaço à comunidade, o Estado valida o Gama como um território de criação e futuro, garantindo o acesso democrático à cultura como um direito fundamental.

