O Cine Itapuã não deve ser compreendido meramente como uma estrutura de concreto no Setor Leste do Gama, mas sim como uma “cicatriz urbana” que pulsa a memória de uma cidade. Do ponto de vista da Museologia Social, o prédio é um arquivo vivo que personifica a própria formação da identidade local. Sua arquitetura, filiada ao brutalismo suave que marcou as cidades-satélites de Brasília, priorizava vãos livres generosos e uma fachada funcional que permitia uma fluidez quase poética entre o espaço público e o privado.
“Seu foyer amplo e o pé-direito alto permitiam que o público se integrasse ao espaço urbano antes mesmo de entrar na sala de projeção, criando uma transição natural entre a rua e o sonho.”
Diferente das salas contemporâneas, hoje enclausuradas em caixas herméticas dentro de centros comerciais, o Itapuã era o principal eixo de sociabilidade urbana do Gama. Antes da era dos shoppings, o cinema de rua era onde a comunidade exercia seu direito à cidade e à subjetividade. Quando um cinema dessa magnitude silencia, ocorre um processo de desertificação cultural que afeta não apenas o lazer, mas o sentimento de pertencimento. Para entender o presente de abandono, precisamos retornar ao momento em que o Gama desafiou o centro e acendeu suas luzes pela primeira vez.
2. Fase 1 (1961-1985): O Gigante do Gama e a Era Comercial
A fundação do Itapuã remete aos primórdios da capital. Embora haja uma nuance documental — alguns registros apontam 1964 — a data oficial de inauguração pela empresa paulista Paulo de Sá Pinto é 28 de março de 1961. Ele foi o primeiro edifício de alvenaria do Gama, um símbolo de solidez e progresso. Com 1.117 lugares, consolidou-se como o segundo maior cinema de Brasília, subvertendo a lógica da “periferia cultural” ao realizar, por vezes, lançamentos de filmes antes mesmo das salas do Plano Piloto.
Nesta fase comercial, o Itapuã operava como uma vitrine versátil para o mercado:
- Cinema Nacional: Janela prioritária para a produção brasileira.
- Sessões Temáticas: Filmes infantis e produções religiosas (especialmente na Semana Santa).
- Cultura Pop: Fenômeno das sessões de Kung-fu que atraíam a juventude.
- Transição de Mercado: Exibição de pornochanchadas nos anos 80, refletindo a crise do modelo de exibição tradicional.
Comparativo Histórico: Os Pilares do Audiovisual no DF
| Característica | Cine Brasília | Cine Itapuã |
| Inauguração | 1960 | 1961 (ou 1964, conforme fonte) |
| Estatuto | Espaço cultural mais antigo do DF | Segundo espaço cultural mais antigo |
| Arquitetura | Modernismo monumental | Brutalismo suave (1º de alvenaria no Gama) |
| Capacidade | Referência do Eixo Sul | 1.117 lugares (Gigante do Setor Leste) |
No entanto, o modelo puramente comercial começou a sofrer pressões externas, exigindo uma intervenção que transformaria o prédio em palco de uma disputa política pela memória cinematográfica.
3. Fase 2 (1986-1990): A Revolução Cineclubista e a Conquista da Comunidade
Em 1986, o Itapuã corria o risco de ser convertido em um supermercado. Foi a intervenção do Cineclube Porta Aberta, sob a liderança de figuras como Gérson Santos, que resgatou a vocação cultural do imóvel. A visão de Santos era clara: o Itapuã deveria parar de exibir o “sexo explícito” das pornochanchadas para se tornar a janela do “melhor da produção nacional”.

O auge desta resistência foi a reinauguração épica em 8 e 9 de outubro de 1988. O evento foi uma afirmação do Gama como polo de debate nacional, contando com a presença de:
- Atores e Artistas: Giulia Gam e José Dumont.
- Diretores e Intelectuais: Tizuka Yamasaki, Vladimir Carvalho, João Batista de Andrade, Geraldo Moraes e Pedro Jorge.
Apesar de um problema técnico que impediu a exibição em 35mm do curta “A Cor da Luz”, o valor simbólico foi inabalável. Em 1989, o Itapuã integrou a circulação do Festival de Brasília, trazendo o ator Wilson Gray para um diálogo direto com a juventude local. Enquanto o Gama celebrava sua “janela para o Brasil”, uma tempestade política nacional começava a se formar no horizonte.
4. Fase 3 (1991-2005): O Efeito Dominó da Crise Nacional (Embrafilme)
A década de 90 marcou o início de uma “degradação gradual”. A liquidação da Embrafilme pelo governo Collor não foi apenas um fato econômico, mas um golpe estrutural que implodiu a rede de distribuição de cópias físicas em 35mm, asfixiando os cinemas independentes.
Causa e Efeito da Crise Audiovisual:
- Fator Nacional: Fim da Embrafilme e desestruturação das políticas de fomento.
- Consequência Local:
- Implosão do cineclubismo e perda de acesso a lançamentos nacionais.
- Porta Aberta como último reduto de resistência, lutando contra o mercado comercial.
- Hibridismo Precário: O cinema deixou de ser sala de projeção contínua para sediar formaturas, seminários e shows de artistas como Ângela Rorô, Beto Guedes e Emílio Santiago.
- Consequência Local:
Sem manutenção e sem o fluxo constante do cinema, a estrutura física sucumbiu. O fechamento definitivo ocorreu em 2005, após o comprometimento crítico e a queda parcial do telhado, marcando o início de um longo inverno de silêncio.
5. Fase 4 (2006-2023): O Abandono, a Lei e a Resistência Comunitária
Nesta fase, o Itapuã deixou de ser palco para se tornar um símbolo de resistência e, lamentavelmente, de perda documental. Como educador cultural, é preciso destacar a tragédia silenciosa da deterioração dos arquivos da Folha do Gama: fotos e jornais que narravam a era cineclubista foram perdidos pela umidade e pelo descaso.
A resistência foi mantida pelo movimento “Itapuã Resiste”, com artistas como Laércio Nicolau promovendo eventos em frente às portas lacradas. Em termos legais, a relevância do espaço foi blindada pela Lei nº 5.616/2016, que o declarou Patrimônio Cultural Material do DF. Contudo, o período foi marcado por uma severa fadiga social diante de promessas não cumpridas:
- 2013/2014: Promessa de reabertura após pressão popular.
- 2021: Anúncio de reforma com foco no telhado (concluído, mas sem reabrir o prédio).
- 2022: Nova previsão para fachada e pintura que não se materializou integralmente.
Após décadas de incertezas, o horizonte urbano começou a receber novos desenhos de renovação em uma escala sem precedentes.
6. Fase 5 (2024-2026): Requalificação Urbana e o Novo Amanhã
Em 19 de março de 2026, a assinatura da ordem de serviço pelo governador Ibaneis Rocha marcou o início de uma nova fase. O projeto atual não olha apenas para o prédio, mas para uma área de 158 mil m², reconhecendo que o cinema é o nó vital de um ecossistema urbano complexo.
O Novo Uso: Conforme a visão de Walter Sarça, o Itapuã do século XXI deve ser um Centro Cultural Multifuncional. O streaming alterou o consumo comercial, mas não substitui a experiência coletiva. O plano inclui a criação de um Museu do Cinema, preservando máquinas e registros que escaparam da degradação.
Task List de Requalificação do Entorno:
- [ ] Execução de 15.554 m² de calçadas acessíveis para integração urbana.
- [ ] Implementação de 57.140 m² de áreas verdes e plantio de 280 árvores.
- [ ] Recuperação de ciclovias e reorganização dos estacionamentos.
- [ ] Instalação de Ponto de Encontro Comunitário (PEC) e minicampo esportivo.
- [ ] Criação de espaços para eventos temporários e feiras de economia criativa.
Mais do que reformar paredes, o desafio agora é devolver o sentido de pertencimento a uma nova geração que nunca viu as luzes do Itapuã acesas.
7. Conclusão: O Que Aprendemos com o Itapuã?
A trajetória do Cine Itapuã nos ensina que o direito à cultura e à memória fora do Plano Piloto exige vigilância constante. O Itapuã provou que o Gama não é periferia, mas um polo de produção de sentido que já lançou filmes antes do centro e acolheu o Festival de Brasília.
A lição fundamental é que a preservação do patrimônio não é um luxo, mas uma necessidade para evitar a amnésia coletiva. O fechamento prolongado de um cinema de rua é, em última análise, a amputação de uma parte da alma da cidade e uma forma de violência contra o território. Reabrir o Itapuã é um ato de reparação histórica e o retorno da dignidade cultural ao Gama.
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Nota de Rodapé: Documento elaborado a partir dos registros históricos de Frank Barroso (Folha do Gama), com foco na análise de patrimônio e sociologia urbana.

