Cronologia Comentada O Cine Itapuã e a Identidade Cultural do Gama (1961-2026)

Redação FG
Lido a 10 Minuto
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magem mostra a fachada do Centro Cultural Itapuã, no Gama, com intervenções em grafite na base do prédio e área externa com bancos e estacionamento.

O Cine Itapuã não deve ser compreendido meramente como uma estrutura de concreto no Setor Leste do Gama, mas sim como uma “cicatriz urbana” que pulsa a memória de uma cidade. Do ponto de vista da Museologia Social, o prédio é um arquivo vivo que personifica a própria formação da identidade local. Sua arquitetura, filiada ao brutalismo suave que marcou as cidades-satélites de Brasília, priorizava vãos livres generosos e uma fachada funcional que permitia uma fluidez quase poética entre o espaço público e o privado.

“Seu foyer amplo e o pé-direito alto permitiam que o público se integrasse ao espaço urbano antes mesmo de entrar na sala de projeção, criando uma transição natural entre a rua e o sonho.”

Diferente das salas contemporâneas, hoje enclausuradas em caixas herméticas dentro de centros comerciais, o Itapuã era o principal eixo de sociabilidade urbana do Gama. Antes da era dos shoppings, o cinema de rua era onde a comunidade exercia seu direito à cidade e à subjetividade. Quando um cinema dessa magnitude silencia, ocorre um processo de desertificação cultural que afeta não apenas o lazer, mas o sentimento de pertencimento. Para entender o presente de abandono, precisamos retornar ao momento em que o Gama desafiou o centro e acendeu suas luzes pela primeira vez.

2. Fase 1 (1961-1985): O Gigante do Gama e a Era Comercial

A fundação do Itapuã remete aos primórdios da capital. Embora haja uma nuance documental — alguns registros apontam 1964 — a data oficial de inauguração pela empresa paulista Paulo de Sá Pinto é 28 de março de 1961. Ele foi o primeiro edifício de alvenaria do Gama, um símbolo de solidez e progresso. Com 1.117 lugares, consolidou-se como o segundo maior cinema de Brasília, subvertendo a lógica da “periferia cultural” ao realizar, por vezes, lançamentos de filmes antes mesmo das salas do Plano Piloto.

Nesta fase comercial, o Itapuã operava como uma vitrine versátil para o mercado:

  • Cinema Nacional: Janela prioritária para a produção brasileira.
  • Sessões Temáticas: Filmes infantis e produções religiosas (especialmente na Semana Santa).
  • Cultura Pop: Fenômeno das sessões de Kung-fu que atraíam a juventude.
  • Transição de Mercado: Exibição de pornochanchadas nos anos 80, refletindo a crise do modelo de exibição tradicional.

Comparativo Histórico: Os Pilares do Audiovisual no DF

CaracterísticaCine BrasíliaCine Itapuã
Inauguração19601961 (ou 1964, conforme fonte)
EstatutoEspaço cultural mais antigo do DFSegundo espaço cultural mais antigo
ArquiteturaModernismo monumentalBrutalismo suave (1º de alvenaria no Gama)
CapacidadeReferência do Eixo Sul1.117 lugares (Gigante do Setor Leste)

No entanto, o modelo puramente comercial começou a sofrer pressões externas, exigindo uma intervenção que transformaria o prédio em palco de uma disputa política pela memória cinematográfica.

3. Fase 2 (1986-1990): A Revolução Cineclubista e a Conquista da Comunidade

Em 1986, o Itapuã corria o risco de ser convertido em um supermercado. Foi a intervenção do Cineclube Porta Aberta, sob a liderança de figuras como Gérson Santos, que resgatou a vocação cultural do imóvel. A visão de Santos era clara: o Itapuã deveria parar de exibir o “sexo explícito” das pornochanchadas para se tornar a janela do “melhor da produção nacional”.

José Aparecido, na época Ministro da Cultura, conversando com Gerson Santos da Silva, presidente do Cine Clube Porta Aberta no grande evento de abertura do cinema

O auge desta resistência foi a reinauguração épica em 8 e 9 de outubro de 1988. O evento foi uma afirmação do Gama como polo de debate nacional, contando com a presença de:

  • Atores e Artistas: Giulia Gam e José Dumont.
  • Diretores e Intelectuais: Tizuka Yamasaki, Vladimir Carvalho, João Batista de Andrade, Geraldo Moraes e Pedro Jorge.

Apesar de um problema técnico que impediu a exibição em 35mm do curta “A Cor da Luz”, o valor simbólico foi inabalável. Em 1989, o Itapuã integrou a circulação do Festival de Brasília, trazendo o ator Wilson Gray para um diálogo direto com a juventude local. Enquanto o Gama celebrava sua “janela para o Brasil”, uma tempestade política nacional começava a se formar no horizonte.

4. Fase 3 (1991-2005): O Efeito Dominó da Crise Nacional (Embrafilme)

A década de 90 marcou o início de uma “degradação gradual”. A liquidação da Embrafilme pelo governo Collor não foi apenas um fato econômico, mas um golpe estrutural que implodiu a rede de distribuição de cópias físicas em 35mm, asfixiando os cinemas independentes.

Causa e Efeito da Crise Audiovisual:

  • Fator Nacional: Fim da Embrafilme e desestruturação das políticas de fomento.
    • Consequência Local:
      • Implosão do cineclubismo e perda de acesso a lançamentos nacionais.
      • Porta Aberta como último reduto de resistência, lutando contra o mercado comercial.
      • Hibridismo Precário: O cinema deixou de ser sala de projeção contínua para sediar formaturas, seminários e shows de artistas como Ângela Rorô, Beto Guedes e Emílio Santiago.

Sem manutenção e sem o fluxo constante do cinema, a estrutura física sucumbiu. O fechamento definitivo ocorreu em 2005, após o comprometimento crítico e a queda parcial do telhado, marcando o início de um longo inverno de silêncio.

5. Fase 4 (2006-2023): O Abandono, a Lei e a Resistência Comunitária

Nesta fase, o Itapuã deixou de ser palco para se tornar um símbolo de resistência e, lamentavelmente, de perda documental. Como educador cultural, é preciso destacar a tragédia silenciosa da deterioração dos arquivos da Folha do Gama: fotos e jornais que narravam a era cineclubista foram perdidos pela umidade e pelo descaso.

A resistência foi mantida pelo movimento “Itapuã Resiste”, com artistas como Laércio Nicolau promovendo eventos em frente às portas lacradas. Em termos legais, a relevância do espaço foi blindada pela Lei nº 5.616/2016, que o declarou Patrimônio Cultural Material do DF. Contudo, o período foi marcado por uma severa fadiga social diante de promessas não cumpridas:

  1. 2013/2014: Promessa de reabertura após pressão popular.
  2. 2021: Anúncio de reforma com foco no telhado (concluído, mas sem reabrir o prédio).
  3. 2022: Nova previsão para fachada e pintura que não se materializou integralmente.

Após décadas de incertezas, o horizonte urbano começou a receber novos desenhos de renovação em uma escala sem precedentes.

6. Fase 5 (2024-2026): Requalificação Urbana e o Novo Amanhã

Em 19 de março de 2026, a assinatura da ordem de serviço pelo governador Ibaneis Rocha marcou o início de uma nova fase. O projeto atual não olha apenas para o prédio, mas para uma área de 158 mil m², reconhecendo que o cinema é o nó vital de um ecossistema urbano complexo.

O Novo Uso: Conforme a visão de Walter Sarça, o Itapuã do século XXI deve ser um Centro Cultural Multifuncional. O streaming alterou o consumo comercial, mas não substitui a experiência coletiva. O plano inclui a criação de um Museu do Cinema, preservando máquinas e registros que escaparam da degradação.

Task List de Requalificação do Entorno:

  • [ ] Execução de 15.554 m² de calçadas acessíveis para integração urbana.
  • [ ] Implementação de 57.140 m² de áreas verdes e plantio de 280 árvores.
  • [ ] Recuperação de ciclovias e reorganização dos estacionamentos.
  • [ ] Instalação de Ponto de Encontro Comunitário (PEC) e minicampo esportivo.
  • [ ] Criação de espaços para eventos temporários e feiras de economia criativa.

Mais do que reformar paredes, o desafio agora é devolver o sentido de pertencimento a uma nova geração que nunca viu as luzes do Itapuã acesas.

7. Conclusão: O Que Aprendemos com o Itapuã?

A trajetória do Cine Itapuã nos ensina que o direito à cultura e à memória fora do Plano Piloto exige vigilância constante. O Itapuã provou que o Gama não é periferia, mas um polo de produção de sentido que já lançou filmes antes do centro e acolheu o Festival de Brasília.

A lição fundamental é que a preservação do patrimônio não é um luxo, mas uma necessidade para evitar a amnésia coletiva. O fechamento prolongado de um cinema de rua é, em última análise, a amputação de uma parte da alma da cidade e uma forma de violência contra o território. Reabrir o Itapuã é um ato de reparação histórica e o retorno da dignidade cultural ao Gama.

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Nota de Rodapé: Documento elaborado a partir dos registros históricos de Frank Barroso (Folha do Gama), com foco na análise de patrimônio e sociologia urbana.

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