Um anúncio aguardado há décadas. O Governo do Distrito Federal anunciou nesta quinta-feira, 26 de março, o início formal do processo de reforma do Cine Itapuã, no Gama. A ordem de serviço foi assinada pelo governador Ibaneis Rocha, com investimento previsto de R$ 6,5 milhões para recuperar um dos equipamentos culturais mais simbólicos da cidade. Entretanto, notícia Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec-DF), nesta quinta-feira (26), informa que o investimento estimado é de aproximadamente R$ 10,5 milhões. Fica a pergunta; Qual é valor mesmo?
Fechado desde 2005, o Cine Itapuã atravessou duas décadas de abandono, deterioração física e promessas sucessivas. Por isso, o novo anúncio foi recebido com expectativa, mas também com cautela. A comunidade local acompanha o tema há anos e cobra que, desta vez, a obra realmente saia do papel.

Ao assinar a ordem de serviço, o governador afirmou que a intervenção representa um gesto de respeito aos moradores do Gama. Segundo ele, o espaço cultural é um dos últimos equipamentos públicos do setor que ainda permaneciam fechados, e sua reabertura seria uma forma de devolver dignidade à população. Ainda de acordo com o governo, os recursos para a compra de equipamentos também já teriam sido reservados, com a promessa de que o espaço seja entregue em funcionamento pleno.
Mesmo assim, o anúncio não detalhou de forma clara quais intervenções estruturais serão feitas no prédio, nem apresentou cronograma público minucioso da reforma.
Memória afetiva e valor cultural
Inaugurado em 28 de março de 1961, o Cine Itapuã faz parte da própria formação histórica do Gama. Mais do que um cinema, o local se consolidou ao longo do tempo como ponto de encontro, convivência e expressão cultural.
Durante décadas, o espaço recebeu exibição de filmes, festivais, eventos musicais, apresentações teatrais e atividades comunitárias. O Cine Itapuã também entrou para a memória afetiva de quem viveu a cidade em diferentes períodos. Nomes importantes da cena cultural passaram por ali, inclusive em eventos que marcaram gerações.
Essa dimensão simbólica aparece no relato de moradores e artistas que conviveram com o espaço. Para quem cresceu no Gama, o Cine Itapuã não era apenas um prédio. Era um lugar onde a cidade se reconhecia. Era ali que famílias se reuniam, jovens saíam para assistir a filmes, artistas locais ocupavam o palco e a comunidade encontrava um centro de convivência cultural.

O ator Marco Augusto de Rezende, nascido e criado no Gama, lembrou que o espaço teve papel relevante como cinema e centro cultural, com teatro, música, sarau e festivais. Já o comerciante José Dionízio de Lima recordou que ajudava o operador a passar filmes e conhece até hoje as máquinas que permanecem no interior do prédio. Esses depoimentos mostram que o Cine Itapuã permanece vivo na lembrança dos moradores, mesmo após anos fechado.
Entre promessas e demora
Embora o anúncio atual tenha peso político e simbólico, ele também ocorre após uma longa demora administrativa. Em 30 de junho de 2023, a Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF já havia divulgado que os projetos de reforma tinham sido aprovados pelo Corpo de Bombeiros. Naquele momento, o governo informou que havia cumprido as adequações exigidas para garantir a segurança da edificação e que a próxima etapa seria a elaboração da documentação necessária para licitação e orçamento.
Na prática, aquele passo que parecia próximo da fase final levou quase dois anos para resultar na assinatura da ordem de serviço agora anunciada. Esse intervalo ajuda a explicar por que parte da população recebeu a novidade com esperança, mas sem euforia.
A própria sequência dos fatos mostra um processo lento. Em 2023, a expectativa divulgada pela Secretaria de Cultura era de que o projeto básico pudesse ser concluído em poucos dias, seguido da pesquisa de preços e da captação de recursos. Só depois disso seria possível realizar a licitação para contratar a empresa responsável pelas obras. O tempo transcorrido entre aquela previsão e o anúncio de 2026 evidencia a distância entre o calendário oficial e a realidade.
Por isso, a cobrança atual não é apenas por reforma, mas por clareza. O que exatamente será feito? Qual será o prazo? Quais etapas serão executadas primeiro? Como será a fiscalização da obra? Essas perguntas seguem abertas.
O que pode mudar no entorno
Mesmo sem detalhamento específico da reforma do prédio no anúncio do governador, existe um elemento importante no debate: a aprovação, em 20 de maio de 2025, do projeto de requalificação de toda a área do Complexo Cultural Itapuã e do seu entorno.
Segundo as informações já divulgadas pela Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação, a proposta prevê uma intervenção ampla em uma área de 158 mil metros quadrados no Setor Leste do Gama. A ação não se limitaria ao edifício do cinema, mas incluiria o parque infantil, praças, agência dos Correios, parte do setor industrial e outros espaços urbanos próximos.
De acordo com o projeto, seriam construídos mais de 15,5 mil metros quadrados de calçadas acessíveis, com largura de três metros nos trechos de maior circulação de pedestres. Também está prevista a recuperação da ciclovia, ampliação da arborização, reorganização dos estacionamentos e instalação de mobiliário urbano, como bancos, mesas e lixeiras.
A proposta ainda fala em 57.140 metros quadrados de área verde, com plantio de 280 mudas de árvores e 20 mudas de arbustos. No parque infantil, a previsão é criar uma miniquadra esportiva com mais sombreamento. Já os estacionamentos passariam por reconfiguração, com 609 vagas para carros, inclusive para pessoas com deficiência e idosos, além de 214 vagas para bicicletas e 72 para motos.
Se essa requalificação for integrada à reforma do Cine Itapuã, o impacto poderá ser maior do que a simples recuperação do edifício. O espaço poderá voltar como polo cultural inserido em uma área urbana mais acessível, mais arborizada e mais adequada ao uso cotidiano da comunidade.
Mais que obra, uma reparação urbana
A reforma do Cine Itapuã precisa ser entendida também como questão urbana. Quando um equipamento cultural fecha por vinte anos, a cidade perde mais do que programação artística. Ela perde centralidade, convivência, identidade e circulação de pessoas.
No caso do Gama, isso é ainda mais sensível porque o Cine Itapuã ocupa uma posição histórica e territorial importante. Sua degradação afetou não só o patrimônio edificado, mas o modo como a população se relaciona com o centro cultural da cidade.
Reabrir o espaço significa criar novamente um ponto de encontro entre memória e futuro. Significa oferecer um local para cinema, teatro, música, festivais, formação artística e atividades comunitárias. Significa, também, reforçar o direito à cultura em uma região administrativa que há muito tempo reivindica atenção mais concreta para seus equipamentos públicos.
Para quem vive o cotidiano da cidade, a expectativa é simples e direta: não basta anunciar. É preciso executar. Você pode até ouvir o discurso oficial e reconhecer a importância do gesto, mas a comunidade quer ver máquinas trabalhando, cronograma sendo cumprido e portas reabertas.
Esse ponto dá ao tema uma dimensão universal. Em muitas cidades brasileiras, equipamentos culturais históricos passam anos esquecidos, embora sigam vivos na memória popular. O caso do Cine Itapuã dialoga com essa realidade maior: a de comunidades que continuam esperando que o patrimônio público volte a servir às pessoas.
O desafio agora é cumprir
A reabertura de espaços culturais e esportivos tem sido apresentada pelo GDF como uma marca de gestão desde 2019, com a recuperação de equipamentos como o Cine Brasília, o Museu de Arte de Brasília e o Autódromo Internacional de Brasília. Nesse contexto, o Cine Itapuã entra como peça importante dessa política de recuperação.
No entanto, o peso simbólico do anúncio só se confirmará com a entrega efetiva da obra. A população do Gama já ouviu promessas antes. O tempo de espera tornou a comunidade mais vigilante e menos inclinada a aceitar anúncios sem acompanhamento.
A expectativa, portanto, é dupla. De um lado, existe a esperança legítima de ver o patrimônio restaurado. De outro, há a necessidade de transparência sobre escopo, prazo, fiscalização e modelo de funcionamento futuro.
O Cine Itapuã não é apenas uma construção antiga. Ele é parte do rosto cultural do Gama. Sua recuperação pode representar um marco de reencontro entre a cidade e sua própria história, desde que venha acompanhada de execução concreta e compromisso público contínuo.
No fim, a frase que resume tudo é direta: o Gama não espera só uma reforma, espera a devolução de um lugar que nunca deixou de ser seu.




