Gama: Além da “Colmeia” – 5 Descobertas Fascinantes sobre a Cidade que Moldou o Entorno do DF

Redação FG
Lido a 8 Minuto
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O formato hexagonal, que evoca a imagem de uma colmeia, foi desenhado para organizar a vida urbana de forma concêntrica, facilitando a fluidez e a visão panorâmica.

Para quem transita pelas largas vias do Gama, a percepção de ordem é imediata, mas a complexidade por trás dessa organização muitas vezes passa despercebida. Como geógrafo urbanista e jornalista, vejo o Gama não apenas como uma cidade-satélite, mas como um dos experimentos urbanísticos mais audaciosos do Distrito Federal. Enquanto o Plano Piloto de Lucio Costa se expandia em eixos, o Gama nascia para consolidar o sudoeste brasiliense através de uma geometria singular.

Muitos moradores desconhecem que ao documento “Memória Técnica”, que reúne o diagnóstico e  leitura técnica elabora no processo de revisão do Plano Diretor de 2006 da cidade esconde detalhes fundamentais sobre sua fundação e geografia. O objetivo deste artigo é revelar, sob uma ótica técnica e urbsanista, os fatos que explicam a alma do Gama, indo além do senso comum para entender como esta cidade se tornou o polo de agregação que moldou todo o entorno sul do DF.

O Design Revolucionário: Por que o Gama parece uma Colmeia?

O traçado urbano do Gama foi uma ruptura deliberada com o “padrão Novacap” da época. Enquanto outras cidades-satélites seguiam modelos mais lineares ou em grelha, o engenheiro Paulo Hungria concebeu um projeto inteiramente original. O formato hexagonal, que evoca a imagem de uma colmeia, foi desenhado para organizar a vida urbana de forma concêntrica, facilitando a fluidez e a visão panorâmica.

A cidade foi estruturada em quatro grandes setores residenciais (Norte, Sul, Leste e Oeste) que circundam um Setor Central destinado ao comércio especializado e agências bancárias. Um detalhe técnico muitas vezes omitido é que, embora Paulo Hungria tenha assinado o conceito geral, o Arquiteto Gladson da Rocha foi o responsável pelo planejamento específico do Setor Sul. Esse design hexagonal não foi apenas um capricho estético; foi uma solução urbanística pensada para harmonizar a densidade populacional com uma infraestrutura centralizada e eficiente.

A Origem do Nome: Entre Padres, Ribeirões e o “Batismo” Histórico

A etimologia de “Gama” é frequentemente confundida com a letra grega, mas a história regional revela raízes mais profundas. O nome deriva das antigas terras da Fazenda Gama, desapropriada para a construção da nova capital. O historiador Germides Reis sustenta que o nome homenageia o Padre Gama, de Luziânia, figura atuante na região durante o ciclo do ouro.

Historicamente, existe uma dualidade fascinante sobre o “nascimento” da cidade. Administrativamente, o Governo do Distrito Federal fixou a data inaugural em 12 de outubro de 1960. No entanto, para historiadores e pioneiros, a “verdade histórica” remete a 8 de outubro de 1960, data da visita de inspeção do prefeito Israel Pinheiro às primeiras obras do núcleo pioneiro (iniciadas em 21 de setembro). Foi nessa ocasião que Israel Pinheiro proferiu sua frase icônica:

“Vocês estão vendo nascer a cidade do Gama. O dia 8 de outubro será o primeiro da história desta cidade.”

 O Paradoxo Populacional: A Cidade que “Encolheu” para Crescer

Na década de 90, o Gama passou por um processo de “maturação administrativa” que gerou dados curiosos. Entre 1991 e 1996, a população registrada pelo IBGE caiu de 136.303 para 121.621 habitantes. Esse fenômeno não indicava um declínio real, mas sim o desmembramento territorial para a criação das Regiões Administrativas de Santa Maria, Recanto das Emas e São Sebastião.

Diferente de Guará e Ceilândia, o Gama cresceu de forma mais contida nesse período, influenciado por sua maior distância do Plano Piloto. Contudo, a vitalidade da cidade é comprovada pelos dados de 1997, que já mostravam uma recuperação para 124.990 habitantes. O Gama consolidou-se, assim, não apenas como um dormitório, mas como um polo irradiador de desenvolvimento para cidades vizinhas como Novo Gama e Cidade Ocidental.

Um Divisor de Águas Geográfico: A Chapada da Contagem

Geologicamente, o Gama é um dos pontos mais vitais do Planalto Central. A cidade abriga a Chapada da Contagem (Unidade A1), cujo nome remonta aos antigos postos de “contagem” e tributação de mercadorias do período colonial. Com uma altitude média de 1.200 metros, esta chapada funciona como um divisor de águas estratégico para o continente:

  • As águas que vertem para o norte alimentam a Bacia Amazônica (via tributários do Rio Maranhão).
  • As águas que seguem para o sul e leste alimentam a Bacia Platina (através dos rios Descoberto, Alagado e Paranoá).

Abaixo, os principais corpos d’água que definem a hidrografia local:

  • Rio Descoberto: Fundamental para o abastecimento público do Distrito Federal.
  • Ribeirão Alagado: Define os limites entre o Gama e Santa Maria.
  • Ribeirão Ponte Alta: Onde se instalou o núcleo rural pioneiro.
  • Córregos Monjolo, Crispim e Olho D’água: Fontes vitais para as áreas rurais e urbanas.

Nota de Conservação: Do ponto de vista técnico, a impermeabilização do solo e ocupações irregulares próximas às nascentes do Córrego Ponte de Terra e Olho D’água representam sérios riscos ao equilíbrio hídrico da região.

O Futuro na Participação: Planejamento Permanente e Democrático

A modernização institucional do Gama ganhou força com a elaboração do Plano Diretor Local (PDL) a partir de 1995. Este instrumento não foi apenas uma peça técnica, mas uma resposta direta aos preceitos da Constituição Federal de 1988 e da Lei Orgânica do DF, que exigiam a democratização da gestão territorial.

O PDL do Gama, articulado com o PDOT (Plano Diretor de Ordenamento Territorial), introduziu metodologias inovadoras como o “Orçamento Participativo”. Através de audiências públicas, a comunidade passou a decidir sobre normas de uso do solo, visando simplificar a legislação para promover o bem-estar coletivo. Para um urbanista, esse é o maior legado da cidade: a transição de um planejamento tecnocrático para um modelo de construção democrática da cidadania.

7Conclusão: O Gama como Legado Vivo

O Gama transcende sua função de Região Administrativa; é um marco da engenharia, um divisor geológico e um símbolo de resiliência histórica. Do olhar visionário de Juscelino Kubitschek no Catetinho ao engajamento popular na revisão de seu Plano Diretor, a cidade prova que o urbanismo deve servir às pessoas sem ignorar as condicionantes do meio ambiente.

Como especialistas, deixamos a reflexão: Como o design hexagonal e a posição geográfica estratégica do Gama podem inspirar as novas soluções urbanas para o futuro das cidades brasileiras?

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